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segunda-feira, 20 de abril de 2015

JORGE LUIS BORGES - POEMAS E PENSAMENTOS






Alguns poemas e pensamentos de Jorge Luis Borges


A CHUVA

A tarde bruscamente se aclarou,
porque já cai a chuva minuciosa.
Cai e caiu. A chuva é só uma coisa
que o passado por certo frequentou.
Quem a escuta cair já recobrou
o tempo em que a fortuna venturosa
uma flor lhe mostrou chamada rosa
e a cor bizarra do que cor tomou.
Esta chuva que treme sobre os vidros
alegrará nuns arrabaldes idos
as negras uvas de uma parra em horto
que não existe mais. A umedecida
tarde me traz a voz, a voz querida
de meu pai que retorna e não é morto.





"Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens."


O SUL

De um dos teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
e do banco da sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que a minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o cheiro do jasmim, da madressilva,
o silêncio do pássaro a dormir,
o arco do saguão, a umidade
- essas coisas talvez sejam o poema.






"Nunca releio o que escrevo. Prefiro viver em função do futuro."


Por vezes à noite há um rosto
Que nos olha do fundo de um espelho
E a arte deve ser como esse espelho
Que nos mostra o nosso próprio rosto.






"Eu não falo de vingança nem de perdão, o esquecimento é a única vingança e o único perdão."



 VIVER A VIDA



"Se eu pudesse novamente viver a vida...
Na próxima...trataria de cometer mais erros...
Não tentaria ser tão perfeito...
Relaxaria mais...
Teria menos pressa e menos medo.
Daria mais valor secundário às coisas secundárias.
Na verdade bem menos coisas levaria a sério.
Seria muito mais alegre do que fui.
Só na alegria existe vida.
Seria mais espontâneo...correria mais riscos, viajaria mais.
Contemplaria mais entardeceres...
Subiria mais montanhas...
Nadaria mais rios...
Seria mais ousado...pois a ousadia move o mundo.
Iria a mais lugares onde nunca fui.
Tomaria mais sorvete e menos sopa...
Teria menos problemas reais...e nenhum imaginário.
Eu fui dessas pessoas que vivem preocupadamente
Cada minuto de sua vida.
Claro que tive momentos de alegria...
Mas se eu pudesse voltar a viver, tentaria viver somente bons momentos.
Nunca perca o agora.
Mesmo porque nada nos garante que estaremos vivos amanhã de manhã.
Eu era destes que não ia a lugar algum sem um termômetro...
Uma bolsa de água quente, um guarda chuvas ou um paraquedas...
Se eu voltasse a viver...viajaria mais leve.
Não levaria comigo nada que fosse apenas um fardo.
Se eu voltasse a viver
Começaria a andar descalço no início da primavera e...
continuaria até o final do outono.
Jamais experimentaria os sentimentos de culpa ou de ódio.
Teria amado mais a liberdade e teria mais amores do que tive.
Viveria cada dia como se fosse um prêmio
E como se fosse o último.
Daria mais voltas em minha rua, contemplaria mais amanheceres e
Brincaria mais do que brinquei.
Teria descoberto mais cedo que só o prazer nos livra da loucura.
Tentaria uma coisa mais nova a cada dia.
Se tivesse outra vez a vida pela frente.
Mas como sabem...
Tenho 88 anos e sei que...estou morrendo."




"Todos os caminhos levam à morte. Perca-se."



Não és os Outros

Não há-de te salvar o que deixaram 
Escrito aqueles que o teu medo implora; 
Não és os outros e encontras-te agora 
No meio do labirinto que tramaram 
Teus passos. Não te salva a agonia 
De Jesus ou de Sócrates ou o forte 
Siddharta de ouro que aceitou a morte 
Naquele jardim, ao declinar o dia. 
Também é pó cada palavra escrita 
Por tua mão ou o verbo pronunciado 
Pela boca. Não há pena no Fado 
E a noite de Deus é infinita. 
Tua matéria é o tempo, o incessante 
Tempo. E és cada solitário instante. 






"Dá o santo aos cães, atira as tuas pérolas aos porcos; o que importa é dar."

O Remorso

Cometi o pior desses pecados 
Que podem cometer-se. Não fui sendo 
Feliz. Que os glaciares do esquecimento 
Me arrastem e me percam, despiedados. 
Pelos meus pais fui gerado para o jogo 
Arriscado e tão belo que é a vida, 
Para a terra e a água, o ar, o fogo. 
Defraudei-os. Não fui feliz. Cumprida 
Não foi sua vontade. A minha mente 
Aplicou-se às simétricas porfias 
Da arte, que entretece ninharias. 
Valentia eu herdei. Não fui valente. 
Não me abandona. Está sempre ao meu lado 
A sombra de ter sido um desgraçado. 



"Apaixonar-se é criar uma religião que tem um deus falível."






Biografia de Jorge Luís Borges:

Jorge Luís Borges (1899-1986) foi um poeta escritor argentino, considerado uma das maiores expressões literárias de seu país.

Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires. Sua família viajou para a Suíça em 1914, onde passou a viver até 1919, quando foi viver em Madrid.

De volta à Argentina, começou a publicar poemas de inspiração surrealista. Seu primeiro livro foi “Fervor de Buenos Aires” (1923). Em 1938, tornou-se bibliotecário para ganhar a vida. No mesmo ano, morreu seu pai e sofreu uma lesão que quase o levou
à morte.

Em 1943, publicou uma das suas maiores obras: “O Aleph”, considerado pelo crítico Harold Bloom como uma das maiores obras literárias do ocidente. Na obra, Borges sugere imagens e espelhos onde o real confundia-se com a realidade.

Com a chegada de Juan Peron ao poder, Borges foi demitido e obrigado a sustentar-se com ajuda de amigos, que o indicaram para conferências e palestras. Em 1955, foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional.

A cegueira que lhe acometeu fez com que Borges vivesse em reclusão durante boa parte do fim de sua vida.

Leitor voraz, lecionou literatura inglesa na Universidade de Buenos Aires. Borges foi considerado um dos maiores especialistas da língua inglesa da América Latina.

Casou-se aos 86 anos com sua secretária Maria Kodama. Outras obras poéticas importantes de Borges: “Luna de Enfretante” (1925), Cuaderno de São Martin (1929), Poemas (1922-1943), só para citar algumas. As obras de prosa, vale a pena ressaltar: “Inquisiciones” (1925), “História da Eternidade”(1936), “El jardín de senderos que se bifurcan” (1941).

Borges faleceu em 1986, aos 86 anos, em Buenos Aires.






sexta-feira, 10 de abril de 2015

Guy Consolmagno - O Astrônomo do Vaticano




"Dentro em breve, as nações recorrerão aos alienígenas para sua salvação."


Com mestrado no MIT e pós-doutorado em Harvard, o padre Guy Consolmagno é um dos astrônomos do Vaticano. Nesta entrevista em que relembra a conturbada relação histórica entre ciência e religião, ele defende ambas com a mesma paixão.

Por que o Vaticano tem um observatório astronômico?

O observatório mostra ao mundo que a Igreja apoia, ativamente, a ciência. Isso é importante não só como resposta às pessoas que rejeitam a Igreja por achar que ela é, de alguma forma, anticiência, mas também para mostrar às pessoas da Igreja que a ciência deve ser encorajada. Nas palavras do Papa João Paulo II, a verdade não contradiz a verdade. Num sentido mais profundo, além de servir como ponte entre os mundos da Igreja e da ciência, nosso observatório ajuda os crentes a apreciar as glórias da criação, como uma forma de louvar o Criador. E isso significa fazer ciência de verdade, saber como o Universo realmente funciona, e não apenas presumir que já sabemos tudo. Uma pessoa só pode ser cientista se tiver um grande senso de humildade: para poder abarcar cada problema admitindo, desde o início, “eu não sei, vamos descobrir”.

Como era a relação entre ciência e religião quando o observatório foi criado?

O fim do século XIX, quando a versão moderna do observatório foi restabelecida pelo Papa Leão XIII, foi um período em que muitos, na cultura popular, acreditavam que ciência e tecnologia (com frequência confundidas, como ocorre até hoje) guardavam a promessa de resolver todos os problemas humanos e responder a todas as questões; poderiam algum dia até substituir a religião. Trata-se de um grave mal-entendido sobre o que é a ciência e como ela opera, mas continua a ocorrer hoje. Geralmente, as pessoas que querem fazer da ciência um substituto da religião não são cientistas!

Qual a posição do observatório em relação a Galileu Galilei?

A história da Igreja e de Galileu é, na verdade, muito complicada. Houve momentos em que ele foi altamente apoiado por alguns dentro do Vaticano; em outros, foi condenado. Ele tinha amigos e inimigos poderosos. Há muitos bons livros sobre Galileu e o fato de poucos deles concordarem sobre os motivos que levaram a Igreja a agir como agiu nos mostra que as motivações para o infame julgamento de 1633 não estão muito claras. Eu mesmo não entendo! Mas certamente é mais complicado do que a versão popular.

Como evoluiu a relação entre ciência e religião? Como é hoje?


Na verdade, entre cientistas e entre aqueles que trabalham na Igreja, a relação é excelente. Muitos cientistas são frequentadores assíduos da Igreja. E mesmo os cientistas que são ateus (e eles não são, de forma alguma, a maioria) não têm problemas com os cientistas religiosos. O “conflito” é inteiramente uma criação daqueles, de ambos os lados, que são ignorantes da ciência ou da religião. Com frequência, eles agem desse jeito por medo; e, algumas vezes, esses medos são compreensíveis. Pessoas fizeram muitas coisas ruins em nome da religião. Mas suprimir a religião não as impediria de fazer coisas ruins. Muitas outras também usaram a tecnologia que a ciência apoia de forma ruim. E deter a ciência não interromperia esse abuso.

A posição do Vaticano sobre a Teoria da Evolução de Darwin mudou ao longo dos tempos. Como o senhor analisa essas mudanças?

Não há, nem nunca houve, uma posição oficial do Vaticano sobre a Evolução. Certamente, ao longo dos anos, houve quem levantasse suspeitas sobre a teoria, mas em oposição àqueles que tentavam usá-la como um substituto para a religião — àqueles que, na verdade, estavam dizendo “nós podemos explicar a origem da vida, então não precisamos de Deus”. (A premissa dessa frase não é ainda verdade; e, mesmo se fosse, a segunda parte não logicamente segue a primeira!). Papas só falaram sobre a Evolução em duas ocasiões diferentes (Pio XII, em 1950, e João Paulo II, em 1996). Em ambas as vezes, eles afirmaram que não há nada de errado em explorar as formas pelas quais Deus age, desde que se reconheça que toda a criação é, no fim, o resultado da vontade de Deus. E que o aspecto sobrenatural da alma humana não é algo que possa ser atribuído ao acaso.

A descoberta do bóson de Higgs (a partícula que dota de massa todas as demais e estaria na origem de tudo) deixa menos espaço para Deus?

Me desculpe, mas isso é uma bobagem! A despeito do que pode ter sido inferido do título do livro que descreve a partícula (“A partícula de Deus”, de Leon Lederman), a partícula não tem nada a ver com Deus, exceto como uma manifestação da criação e, dessa forma, indiretamente, um reflexo do Criador.

Então qual é a sua resposta para o biólogo Richard Dawkins (autor de “Deus, um delírio”), quando ele fala do “Deus das lacunas”, ou seja, do Deus que só existe nas áreas que a ciência ainda não conseguiu explicar e que vai ficando encurralado à medida que a ciência avança, como no caso da descoberta do bóson como partícula derradeira?

Acho correto rejeitar a ideia do “Deus das lacunas”. Deus não é uma explicação para toda parte da ciência que ainda não sabemos. Isso rebaixa Deus ao status de apenas mais uma força natural, em vez de o maior e definitivo sobrenatural autor do Universo capaz de evoluir para o que vemos hoje. Ser um ateu significa que você deve ter um conceito muito claro do Deus que você tem certeza de que não existe. Em muitos casos, o “deus” em que os ateus não acreditam é uma versão de “deus” na qual eu também não acredito. O Deus do amor que eu conheço e amo, o Deus das orações, das escrituras e dos sacramentos, esse é um Deus que eu experimentei e que eles, aparentemente, não.

O senhor acredita em vida alienígena? Como a Igreja lida com a perspectiva da descoberta de vida inteligente em outros planetas?


Essa é uma pergunta que aparece a toda hora, que as pessoas vem fazendo há séculos. E a resposta é que não sabemos. Não há uma política “oficial” sobre o assunto, nem deve haver. Não temos ainda nenhum indício concreto de vida fora da Terra, mas, certamente, seria idiota tentarmos estabelecer limites para o que Deus pode ou não ter criado. Teremos que esperar para ver! Enquanto isso, trata-se de uma maravilhosa questão para pensarmos, não porque poderemos dizer algo definitivo sobre as almas dos aliens, por exemplo, mas porque, ao fazer essa pergunta, podemos alcançar uma compreensão mais profunda sobre o que as nossas almas e a nossa salvação realmente representam.

Como o senhor vê o futuro da relação entre ciência e religião?

Nós fazemos ciência porque somos seres humanos com motivações humanas.... cães e gatos não fazem ciência. Essas motivações incluem curiosidade, desejo de saber, vontade de entender e um deleite em participar do Universo. Eu acredito, e acho que muitos cientistas também pensam da mesma forma, que essas motivações são, em última análise, religiosas. Mas pessoas ignorantes sempre vão tentar criar conflitos em nome de seus próprios objetivos pessoais. Pessoas sábias sempre saberão como ignorá-los.

fonte: O Globo (online)






quarta-feira, 8 de abril de 2015

The Logical Song - Supertramp







The Logical Song
(A canção Lógica)   SUPERTRAMP


When I was young
(quando eu era jovem)
It seemed that life was so wonderful
(Parecia que a vida era tão maravilhosa)
A miracle, oh it was beautiful, magical
(Um milagre, ela era linda, mágica)
And all the birds in the trees
(E todos os pássaros nas árvores)
Well they'd be singing so happily
(Bem, eles cantavam tão felizes)
Oh, joyfully, playfully, watching me
(Tão contentes e brincalhões, me observando)
But then they sent me away
(Mas então eles me mandaram para longe)
To teach me how to be sensible
(Para me ensinar a ser sensato)
Logical, oh responsible, practical
(Lógico, responsável e prático)
And they showed me a world
(Então mostraram-me um mundo)
Where I could be so dependable
(Onde eu poderia ser tão confiável)
Oh, clinical, intellectual, cynical
(Clínico, intelectual, cínico)

There are times when all the world's asleep
(Há horas em que todo o mundo está adormecido)
The questions run too deep
(As questões correm tão profundamente)
For such a simple man
(Para um homem assim tão simples)
Won't you, please, please, tell me what we've learned
(Por favor, por favor, não me dirá o que aprendemos,)
I know it sounds absurd
(Sei que isto soa absurdo)
But please tell me who I am
(Mas por favor, diga-me quem eu sou)

Now watch what you say
(Agora, cuidado com o que diz)
Or they'll be calling you a radical
(Ou chamarão você de radical)
A liberal, oh fanatical, criminal
(Um liberal, fanático, criminoso)
Oh, won't you sign up your name
(Assine seu nome)
We'd like to feel you're
(Gostaríamos de sentir que você é)
Acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable
(Aceitável, respeitável, apresentável, um vegetal)

At night when all the world's asleep
(À noite quando todo o mundo está dormindo)
The questions run so deep
(As questões correm tão profundamente)
For such a simple man
(Para um homem assim tão simples)
Won't you please, please tell me what we've learned
(Por favor, por favor diga-me o que aprendemos)
I know it sounds absurd
(Eu sei que isto soa absurdo)
But please tell me who I am
(Mas por favor, me diga quem eu sou)
Who I am, who I am, who I am
(Quem eu sou, quem eu sou, quem eu sou)



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Feliz Páscoa!






Que nas casas de vocês exista a paz do renascer. Que a manhã de domingo seja pacífica, doce, silenciosa e contemplativa. Feliz Páscoa!

Deixo de presente de Páscoa, um poema meu:


VOLTA AO VENTRE


Disseram que a mulher que deu-lhe à luz
Não era, de um deus, mãe verdadeira.
Que os anjos lhe falaram; foram vê-la,
E no ventre fechado, semearam.

Nasceu-lhe sob o brilho de uma estrela,
E a alegria ao vê-lo, misturava-se
Ao medo do futuro anunciado,
Pois ao mirar seus olhos de bebê,
Ela reconheceu-lhe o triste fado.

Tentou não dar ouvidos aos profetas,
Tentou negar, dos  anjos,  a palavra...
Viu-o crescer, e os passos que ele dava
A cada vez, mais dela o afastavam!

Até que um dia, fez-se a profecia:
Do alto de uma cruz, ele a mirava...
Sua alma de bebê, tornada homem,
Era a alma de um deus que a deixava!

E  hoje, a cada Sexta-feira Santa,
A alma dele abriga-se  em seu ventre,
Ela o envolve em luz, e ele sente
A paz entre as palavras que ela canta.


quarta-feira, 25 de março de 2015

TEU É O REINO - Abilio Estévez

Medium_766




Perto de Havana, em meio a uma vegetação exótica e exuberante, numa propriedade chamada a "Ilha", repleta de fontes e estátuas fantasmagóricas, vive uma pequena comunidade que, inspirada num ser supremo e onipotente, parece estar à espera de um acontecimento que romperá para sempre sua abúlica inércia. Em meio aos resplendores do mundo do Caribe, numa elétrica atmosfera de um trópico turbulento, pequenos incidentes, aparentemente inocentes, vão se sucedendo no labirinto de um presente impreciso, feito de memórias, evocações e desejo. 



Trecho do livro Teu é o Reino, de Abílio Estévez


O que é a morte?

A Ilha.

Vocês já repararam na Ilha? Imenso cemitério sem túmulos, cemitério gigante, a Ilha.
Almas errantes vagam pela Ilha,
e quando morreram esses pobres ilhéus?
Entre os Balonda, dizem, o homem abandona a choça e a terra onde morreu sua mulher favorita, e quando volta ao lugar, é só para rezar por ela.
Morrer é entrar na segunda vida, a melhor.
Eu não quero outra vida, que me deixem nesta para sempre, aguardente, majarete e, se for possível, um disco de Nico Membiela ou Blanca Rosa Gil, outro de Esther Borja cantando Damisela Encantadora, damisela por ti yo moero. 
Não se preocupe, nesta você continuará para sempre, pois os mortos não percebem que estão mortos, daí o drama, o terrível drama dos mortos.
Isso mesmo, que me deixem tomando cerveja Hatuey, comendo linguiças El Minõ, leitão assado, abóbora e mangarito cozidos com mojo, entendam, tem coisas que não são para esta noite.
O homem é uma roupa, um trapo velho que alguém esquece pendurado num prego, e o tempo passa, e quando você vai ver, nada, poeirinha no chão que se deve varrer.
Você já se perdeu na Ilha?
Ah, perder-se na Ilha, justo nessa hora da Ilha em que ninguém sabe exatamente que horas são.
Acordar sem saber quem você é, nem onde está, nem o que vai fazer,
tirar as camadas de terra que jogaram em cima de você, levantar para nada, olhar ao seu redor sem nada ter para olhar,
não, morrer é uma festa, um baile com Maravilhas da Flórida, 
com a orquestra de Belisario López, un son, um mambo, um cha-cha-chá, um bolerinho...







Abilio Estévez (Havana, 7 de janeiro de 1954) é um escritor cubano, nacionalizado espanhol, que atualmente vive em Barcelona, Espanha.

Nasceu em Marianao, na rua Medrano (hoje 102), junto ao antigo quartel de Columbia, onde o seu pai era radiotelegrafista do Cuerpo de Señales. Viveu em Marianao até deixar Cuba. A sua família é oriunda de Bauta y Artemisa, aldeias do interior de La Havana e Pinar del Río, respetivamente. Foi aluno do Pre-Universitario de Marianao. Em 1977, licenciou-se em Língua e Literaturas Hispânicas na Universidade de Havana, onde no ano seguinte realizou uma pós-graduação em filosofia. Ganhou o prémio "José Antonio Ramos" pela sua peça teatral La verdadera culpa de Juan Clemente Zenea, levada a cena por Abelardo Estorino, com Adria Santana e Julio Rodríguez como protagonistas. Aos 46 anos abandonou Cuba, sendo crítico do regime. Considerado um dos mais importantes dramaturgos da sua geração, escreveu uma dezena de peças e foi professor em vários países (Estados Unidos, Itália, Venezuela).
Estévez é um escritor polifacetado, romancista, contista, poeta e dramaturgo, que foi premiado em todos os géneros em que trabalhou. O seu romance Este é o teu reino, considerada por muitos como a sua melhor obra até ao momento, recebeu o Prémio da Crítica Cubana de 1999 e o Prémio ao Melhor Livro Estrangeiro publicado em França no ano 2000. Os seus livros foram traduzidos e publicados em inglês, francês, alemão, italiano, português, finlandês, dinamarquês, holandês, norueguês e grego.

Fonte: Wikipedia